terça-feira, 24 de setembro de 2013

A Teia de Aranha Alimentar - Primeira Parte:Dependência Física

Para quem está chegando agora, as outras partes do livro:

Introdução


Já falei em outro post sobre a dependência emocional com a comida, que foi a "Primeira Parte: Dependência Emocional". Agora vou tratar da dependência física.

Aliás "Dependência Física" é uma denominação minha, e me refiro à dependência gerada pelo cérebro, pelas reações que acontecem no cérebro e no corpo quando comemos. 



Quando comemos hormônios, enzimas e neurotransmissores são liberados. E muitas vezes, desse processo complexo nasce um vício simples: gostamos do que acontece e queremos que isso aconteça de novo, e a todo instante. Então comemos mais. Mas não nos conscientizamos do vício. Lidamos com isso como algo normal e que pode ser controlado. “Enquanto consumimos, acreditamos que podemos controlar esse consumo, mas chega o momento em que não podemos, pois é a droga que acaba nos controlando: vivemos para consumir e consumimos para viver.. A droga em questão, é a comida, em forma de gordura, açúcar e carboidrato. O autor compara a comida à droga. Porque apesar de ter composições bem diferentes, elas podem gerar relações parecidas: de dependência. Então, porque esse homem não consegue largar a cocaína? Porque não tem capacidade egoica suficiente e não suporta a ideia de viver sem essa satisfação instantânea que a droga proporciona.



E nós - comedores compulsivos - temos essa mesma relação com a comida. Não conseguimos para de comer porque não suportamos a ideia de vivermos sem essa satisfação instantânea. Ainda não se acha viciado? “Como é que você já fez 30 ou 40 dietas em sua vida, se cada vez que começava cada uma elas dizia que era a definitiva? Foi seduzido pela comida ou estava de joelhos, só esperando que ela caísse em cima? Talvez sentisse, enquanto mastigava sem parar, que tinha um desempenho melhor (como o cocainômano) e, agora, a balança diz que, na realidade, fazia de conta que rendia, mas estava sendo anulado.

Porque os viciados em cocaína começam a consumir a droga por achar que ela aumenta o seu rendimento. (a cocaína tem essa particularidade). E nós com a comida fazemos igual. Quando estamos de dieta nos sentimos fracos, literalmente apáticos. E muitas vezes comemos um chocolatinho para "melhorar". Para "aumentar a glicose" e "render mais". Mas depois que encontramos a felicidade no primeiro bombom, não paremos mais de comer. Porque no nosso organismo a comida gera conforto, gera felicidade. E como eu disse no post sobre dependência emocional, fugimos da realidade infeliz procurando a felicidade instantânea na comida. 

E pesando por este lado, realmente existe o “sou gordo, mas sou feliz”. Mas para o gordo ser feliz o tempo todo, ele precisa comer o tempo todo. E isso não é felicidade. E depois do primeiro bombom, não conseguimos parar de comer. Porque somos compulsivos. As pessoas não-compulsivas conseguem comer 1 bombom e parar. Os compulsivos não. Porque o que acontece quimicamente no corpo de um compulsivo ao comer é diferente do que acontece a um não-compulsivo. E ficou diferente graças a anos de compulsão. “Os cérebros e os comportamentos dos adictos a substâncias não são iguais aos das pessoas não adictas, já que o abuso de uma droga altera de forma radical os circuitos neuronais que regulam as sensações de prazer, criando progressivamente uma forte dependência fisiológica da droga em questão”.


Comemos por tentação, por causa do aroma e de todos os sentidos: o sentido da visão (tentador), o sentido do olfato (que faz com que se vá atrás), o sentido do gosto (induz a respeito), o sentido da audição, o sentido da audição (ruído e palavras que representam imagens). Mas quando se começa a comer, tudo depende do tipo de comida que está sendo ingerido e da estrutura da personalidade de quem come. Se nessa estrutura o comer é gratificante, mas não é tudo, ele chega ate um limite e para, pois o sistema leptina-grelina-exina é bem organizado, assim como tudo o que se relaciona com o equilíbrio do sistema hormonal. Contudo, em outros casos, esse equilíbrio se rompe pela ingestão constante decorrente da ansiedade ou de um hábito repetido, por tédio ou por intolerância a frustração. Pouco a pouco, a quantidade aumenta até gerar uma relação de dependência patológica com a comida. Muita gente entra na engorda paulatinamente por estresse, o que faz com que a necessidade de uma dose seja veemente e voraz. Depois de engordar e de incorporar esse comer compulsivo ao funcionamento do organismo, a gordura já desestabilizou o equilíbrio corporal e o comportamento já funciona de forma imediata, automática e mecânica. Consequentemente, quanto a pessoa quer parar de comer, ela não consegue mais.



Em todo o circuito anterior, os chamados ‘desejos’ e ‘tentações’ têm grande relevância. Os primeiros são mentalizações de determinadas vontades que se transformam em momentos obsessivos, em desejo de comer algo. As tentações são externas, pois há pessoas que, se não veem, não comem, não cheiram e não ouvem: esquecem a comida. Se vivem em um ambiente acético de alimentos, não ficam ligadas à comida. Entretanto, basta um estímulo para que embarquem: isso é uma tentação

E depois que a comida gera uma dependência, por trazer a felicidade imediata, ela vira um instrumento. “Como afirma Daniel Goleman: ‘A comida pode ter uma influência notável no estado de espírito e pode, inclusive, atuar como automedicação, como acontece com os remédios’.” E depois que o vício se acomoda, é difícil fazê-lo ir embora. Aliás é difícil fazer ir embora o vício e os quilos a mais, pois “todas as comidas têm capacidade de entrar e pouca vontade de ir embora

Segundo o livro, as consequências do uso de farinhas, açúcares, chocolates, gordura e sal no cérebro são: o aumento nos níveis de dopamina, serotonina e norepinefrina. Vamos analisar cada um desses neurotransmissores:

Dopamina: "fortemente associada aos mecanismos de recompensa do cérebro e às energias. Todo um conjunto de substâncias, que vão desde a nicotina até as farinhas, passando pelo álcool e pela cocaína, aumentam suas produções e, por isso, a vivência imediata e fugaz de euforia e energia."

Serotonina: "é associada à calma, à paz, a sensação de alívio, à serenidade de espírito, ao sorriso. Em níveis excessivamente baixos, relacionam-se com a depressão e com o comportamento obsessivo-compulsivo. Seus níveis baixos também estão intimamente associados ao aumento do desejo de ingerir carboidratos."

Norepinefrina: "é um neurotransmissor fortemente associado com a colocação de nosso sistema nervoso em “alerta máximo”. É responsável, junto com outros fatores, pelo aumento da frequência cardíaca e da pressão sanguínea. A noreponefrina, também conhecida como (nor)adrenalina, é o grande neurotransmissor da excitação, da aceleração, do estado de alerta e de ataque."

Quando comemos e liberamos esses neurotransmissores, gostamos da sensação. E a queremos de novo. E quanto mais comemos, mais os liberamos e mais nos viciamos.

E apesar de a comida ser comparada às drogas, o tratamento é diferente. “Nas adições químicas, a maioria dos tratamentos implica a suspensão absoluta de ingestão tóxica: nada de álcool, cocaína, heroína, é o comportamento a ser mantido. Claro que isso não vale para a comida: a substância ‘comida’ é vital e necessária." Mas precisamos lidar com o vício, e o primeiro passo para lidar com o problema, é enfrentá-lo.“Dante em sua Divina Comédia: ‘a única forma de saber como sair do Inferno é colocar-se em seu próprio centro, em sua parte mais incandescente’.

Não podemos mais alimentar o vício. “Quanto mais se repete uma sensação, mais o cérebro se acostuma com a recompensa e busca aquele prazer. Quando o cérebro se habitua a um nível alto de dopamina, começa a sofrer com sua carência, o que leva à busca de uma nova experiência igualmente prazerosa.”. E neste momento é importante ficarmos alerta. Para não substituir um vício pelo outro. O que é muito comum. Queremos a felicidade instantânea, e não podemos comer porque estamos de dieta. Então começamos a procurá-la em outros lugares: cigarro, álcool, compras.....neste caso, não estamos lidando com o vício, estamos apenas mudando o fator reagente. E se não lidamos com o vício ele continua a existir, firme e forte. E com isso, logo voltamos para a comida. E engordamos tudo de novo.

Para enfrentar o vício, o primeiro passo é se aceitar adicto. Reconhecer a fraqueza para tornar-se forte. “A dependência psicológica é um elemento-chave nesse tipo de patologia. (...) Trata-se, então, de reconhecer, de aceitar o nosso lado vulnerável que, no caso da obesidade, expressa-se no excesso de comida e de peso, e que em outro âmbito se evidência no excesso de álcool, de drogas, de tabaco, de trabalho, de gastos etc. Uma vez detectado o nosso lado vulnerável, é preciso cuidar dele, não questioná-lo. Temos de saber que ele é estrutural  em nossa vida e que não vai desaparecer, sempre estará lá, esperando nosso ‘sim’. Um adicto vive constantemente em recuperação, em distintas fases desse processo, mas nunca perde sua condição de adicto: mesmo que não desenvolva ativamente a condição, ela estará sempre latente.” Esse cuidado pra não alimentar nosso vicio tem que ser para sempre. Teremos que, eternamente, ter cuidado com o que comemos e por que comemos.



 É preciso manter o instinto primário sob vigilância e, para isso, é necessário conhecê-lo, observá-lo, saber que situações conduzem à sua explosão. Isso requer treinamento, que se obtém com o exercício continuado da hábitos não aditivos – um processo que leva tempo: não se acaba em poucos dias com o que foi construído em mais de 20 anos de gordura.”Acostumamos o nosso corpo a ser viciado em comida. Agora precisamos tirar esse costume dele. E com o mesmo método: repetindo as ações. Só que agora precisamos repetir ações saudáveis. Sempre e mais uma vez, até que vire hábito. 

E assim termina a primeira parte do livro, onde o autor fala da nossa relação com a comida.  Na segunda parte o autor fala da aceitação. De assumir nossa culpa em nosso vício para que possamos controlá-lo mais conscientemente e perceber o que funciona o gatilho. Mas isso é papo para um outro post.

2 comentários:

  1. Citando uma parte do texto: "E com o mesmo método: repetindo as ações. Só que agora precisamos repetir ações saudáveis. Sempre e mais uma vez, até que vire hábito".

    É exatamente isso que faz com que eu tenha paciência comigo mesma durante o processo de me reeducar! Minha psicóloga (que segue a linha cognitivo-comportamental) é enfática nisso: não esquecemos velhos hábitos, apenas aprendemos novos. E até o "novo" se instalar, haja paciência!

    Somos viciados mesmo. Não entendo muito o motivo. Talvez carência, medo, solidão, tédio... Pra mim, tédio me faz comer. Nervosismo ou felicidade me tiram a fome... Mas tédio... ai que vontade de mastigar!

    Vamos aprender a ter novos hábitos. Basta termos paciência e muita disciplina...
    Beijos e boa semana!

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    Respostas
    1. Depois que descobri - com o livro - que comemos para não lidar com a frustração, eu tento aplicar isso a tudo (aquela velha história, se o único instrumento que vc tem é o martelo, tudo que vc vê acha que é prego). Então acho que vc não gosta e não aceita fazer nada - tédio. E para combatê-lo, combater essa frustração de não ter nada para fazer, você come. Agora, se você tiver essa consciência, de que está comendo para não encarar a frustração de não ter nada para fazer, você vai pensar melhor, e vai tentar encarar o tédio de frente, em vez de fugir para comida.....eu tô entendendo o livro por este lado. E toda vez que me dá uma fome de leão eu tento identificar o problema, do que estou fugindo, e tendo encarar de frente......vamos ver no que dá.
      Ótima semana pra vc tb. bjsbjs

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